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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Admirável Mundo Atual 4 - Por Cristóvam Buarque

IMORAL LATINO-AMERICANO

Os latino-americanos que insistem em abandonar os pobres de seu continente à própria sorte, defendendo a soberania do mercado, a destruição do estado e a abertura desvairada das fronteiras, mesmo tendo conhecimento das consequencias: o aumento da desigualdade, a ampliação da pobreza, a construção de uma sociedade com apartação, a degradação do ambiental.

IGUALDADE PLENA
É a igualdade que permitiria a todo indivíduo ter igual acesso a todos os bens de consumo. Esse era o objetivo almejado pelos socialistas do século XIX quando a industrialização ainda se concentrava no aumento da produção dos bens essenciais. O conceito foi importado pelos socialistas contemporâneos para a sociedade industrial, que se dedica a aumentar o tipo dos bens supérfluos. Com as características da sociedade industrial moderna de produção de bens supérfluos, e com limites físicos ao crescimento, a igualdade plena torna-se inalcançável, uma proposta sem lógica e sem ética. Sem lógica, porque prometer um automóvel para cada pessoa do mundo é prometer que nenhuma delas o usará - haveria então um engarrafamento colossal e o combustível não seria suficiente. Sem ética, porque na base do sentimento de igualdade estão os direitos fundamentais, e não o consumo supérfluo criado no século XX pelo capitalismo como forma de promover seu crescimento. Surge a necessidade de definir uma igualdade básica que seja possível e justificável eticamente.

BENS ESSENCIAIS
Cada sociedade, assim como cada indivíduo, tem suas próprias necessidades essenciais. Mas há, em cada momento de uma sociedade, a possibilidade de definir bens e serviços sem os quais a pessoa está excluída dos direitos da cidadania: são os bens essenciais. No caso da sociedade contemporânea, a alimentação, a educação e a saúde básicas, a segurança e a justiça, o acesso ao transporte urbano, o direito a um lugar saneado onde morar compõem aquilo que pode ser chamado de cesta de bens essenciais.

IGUALDADE BÁSICA
O conceito de igualdade se afirma a partir do Iluminismo e da revolução francesa. Naquele momento tratava da igualdade dos direitos fundamentais do homem - ao voto, ao corpo, À mobilidade. A Revolução Industrial trouxe consigo a ideia igualdade  do consumo como parte dos direitos de todos os homens. No século XIX, porém, quando foi então adotada, essa ideia de igualdade objetivava o consumo dos bens industriais e dos serviços sociais da época, basicamente bens essenciais capazes de atender à demanda de todos. Com o tipo de avanço tecnológico promovido no século XX, que no lugar de reduzir criou necessidades, e com a percepção dos limites ao crescimento, torna-se impossível atender à igualdade plena do consumo, a menos que se sacrifique o direito ao sonho da liberdade de realizar os desejos de consumo. A alternativa está em definir uma igualdade básica para todos terem acesso aos bens e serviços essenciais.

Leia os anteriores da série  aqui: http://usinavirtualunb.blogspot.com/2011/05/admiravel-mundo-atual-3-por-cristovam.html

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Admirável Mundo Atual 3 por Cristóvam Buarque

BENS COMUNS

uma das características da primeira fase da modernidade-técnica foi o acesso das massas aos bens característicos da aristrocacia; com a apartação, surge novamente uma segregação do consumo. Gradualmente os bens de consumo vão se separando entre os bens dos incluídos e os bens dos excluídos. A água, que sempre foi um bem comum, passou a separar-se entre água contaminada e água engarrafada o transporte separou-se entre o automóvel privado e o ônibus coletivo; até mesmo o ar ficou partido, pois se separou o ar condicionado dos shoppings centers e dos carros do quase irrespirável ar dos centros das cidades entregues aos pobres.

AR PARTADO

Um habitante do primeiro mundo internacional dos ricos pode viver e viajar sem respirar o ar natural do mundo dos pobres e sempre na mesma temperatura, qualquer que seja a latitude geográfica e a estação do ano. Os ricos conseguem ir e vir levando o próprio ar protegido e isolado no ambiente fechado desde sua casa, através de carro ou avião, até o seu destino: o shopping center, o aeroporto, o escritório, o consultório médico, o cinema. E essa não é a única utilização do ar condicionado. Na sociedade com apartação, o ar partado dos carros serve menos para refrescar o calor, do que para proteger os passageiros e separá-los dos habitantes da rua por onde o veículo passa. 

ÁGUA ENGARRAFADA

Em vez de oferecer água limpa a todos os habitantes, o sistema de apartação preferiu resolver o problema dos incluídos, deixando os excluídos abandonados à água contaminada. Os ricos resolveram o problema da água contaminada mediante a implantação de um caríssimo sistema de produção e transporte de água engarrafada, distribuída ao longo de todo o território nacional apenas para os que podem comprá-la. Com o argumento da escassez de recursos, não são construídos sistemas de saneamento, mas não faltam recursos para a industrialização e o transporte de água engarrafada. Graças à globalização, os incluídos da modernidade podem importar  água produzida e engarrafada a milhares de quilômetros de distância. Estima-se que no Brasil os ricos e as classes médias gastam R$ 9 bilhões por ano com a compra de água potável, em poucos anos, enquanto com muito menos seria possível assegurar água potável e saneamento em todas as casas do país. A absurda lógica de gastar recursos vultuosos no transporte de água engarrafada, no lugar de investimentos em sistemas públicos de água potável, é um dos mais fortes exemplos de uma sociedade perversa eticamente e burra tecnicamente por não levar em conta o custo da omissão.


Leia os anteriores da série aqui:
 http://usinavirtualunb.blogspot.com/2011/02/admiravel-mundo-atual-2-por-cristovam.html

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Admirável Mundo Atual 2 por Cristóvam Buarque

CRIME DO DESENVOLVIMENTO


Segundo a conceituação proposta em uma palestra na SBPC* em Salvador, os crimes do desenvolvimento podem ser categorizados em crimes ecológicos, crimes sociais, crimes informáticos, crimes contra etnias e culturas e crimes contra a soberania nacional.


CRIMES ECOLÓGICOS


Embora inimagináveis há cem anos, os crimes ecológicos transformaram-se em uma das mais graves ações anti-éticas dos tempos presentes. De certa forma, apesar de mais lentos e às vezes discretos, os efeitos dos crimes ecológicos são tão dramáticos quanto os dos crimes de guerra, e mais duradouros. Com exceção das armas químicas, nucleares ou biológicas, os efeitos das guerras perduravam no máximo por uma geração. Os efeitos dos crimes ecológicos atravessam gerações, por causa de seus impactos genéticos. Nos últimos anos, diversos crimes ecológicos - Tchernobyl, Three Mile Island, Bhopal, Valdez - têm ocorrido com impactos mundiais e, por causa deles, vidas humanas se perderam, espécies biológicas inteiras se extinguiram, com consequências impresvisíveis para o futuro de toda a humanidade e da vida no planeta.

CRIMES SOCIAIS

A idéia de crime social, como parte da tipologia dos crimes do desenvolvimento, refere-se ao uso de recursos técnicos com fins deliberados de provocar deformações sociais. Esse foi o caso da arquitetura da concentração da renda no Brasil, e em quase todos os PMP-BR, a partir dos anos 80, com o neoliberalismo imposto ao mundo inteiro. No momento em que se tenta julgar em tribunais internacionais os crimes cometidos por ditadores, é preciso julgar tabém os crimes sociais cometidos por grandes empresas, governantes e técnicos do mundo globalizado.

CRIMES CONTRA ETNIAS E CULTURAS


O desenvolvimento se pretendia universal, tanto no capitalismo quanto no socialismo. Por isso, desprezava toda cultura que não fosse identificada com a eficiência da produção e o desperdício do consumo, a ponto de considerar as culturas locais como entraves ao projeto de utopia que o desenvolvimento representava. Coerentemente com tal visão, as culturas passaram a ser ameaçadas de extinção na mesma medida em que são as espécies animais, criando-se um crime contra etnias e culturas.

DOUTORADO EM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


É o nome de um programa de pós-graduação na Universidade de Brasília que procura criar uma nova área do conhecimento capaz de unir os campos dá Ética, da Economia e da Ecologia, a fim de fornecer subsídios para o entendimento da complexidade e da dimensão da crise civilizatória atual e a decorrente formulação de alternativas para o futuro.

* Texto apresentado pelo autor com a proposta de criação de um tribunal para julgar moralmente os crimes de desenvolvimento, nos moldes que funcionava o tribunal Bertrand Russel para julgar os crimes cometidos no Vietnã. Idéia semelhante foi apresentada em 2001 no Fórum Social Mundial para julgar os crimes do neoliberalismo.



Veja a parte 1 em: http://usinavirtualunb.blogspot.com/2010/05/admiravel-mundo-atual-por-cristovam.html

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Admirável mundo atual por Cristóvam Buarque


MENDIXO

Antes da sociedade de apartação os mais pobres conseguiam sobreviver da mendicância. Nos anos 60, era costume doar esmolas a mendigos fixos, nos centros das cidades, ou a mendigos ambulantes, nas portas das casas. Até com certa frequência, mendigos comiam nas mesas das casas, com famílias, ou seguidas a elas. Com os apartamentos, os condomínios fechados e as casas superprotegidas, a esmola desaparece dos bairros domésticos. Nos centros das cidades, raramente é praticada porque os ricos e as classes médias ficam isoladas em seus carros e em shopping centers. No lugar da indignação moral com a pobreza, surgiu uma indignação imoral contra os pobres. Os raros mendigos, em geral com crianças ou recém nascidos, pedem esmolas em meio aos automóveis, nos sinais de trânsito e em outros pontos de passagem. Por outro lado, com a riqueza da apartação o lixo do luxo ficou mais rico, porque as camadas incluídas da sociedade consomem mais e desperdiçam mais. Surge assim um tipo novo e degradado de mendigos: os mendixos, que vivem de catar restos do lixo. Com os modernos sistemas de  lixo zero, em breve nem os mendixos terão como sobreviver desses restos.

SOCIEDADE APARTADA

É a sociedade com apartação, em que os grupos sociais se dividem em incluídos e excluídos.

CONDOMÍNIOS

Um dos símbolos da modernidade-técnica tem mais de mil anos e originou-se dos castelos, onde os nobres e seus serviçais viviam protegidos da ameaça de inimigos externos: São os condomínios fechados, apresentados como a opção mais moderna para a realização dos desejos relacionados a conforto. A vantagem dos condomínios decorre exclusivamente da insegurança em uma sociedade com exclusão; assim como os castelos medievais, os condomínios existem para proteger os ricos contra as ameaças dos pobres.(...) A situação nos dias de hoje chega ao ponto de considerar-se necessária a construção de túneis entre condomínios habitacionais e condomínios comerciais, de maneira a evitar que os habitantes do lado rico sejam obrigados a circular por ruas entre um ou outro de seus castelos modernos.

APARTAÇÃO

A palavra tem origem no latim partire, que significa dividir em partes.Com base na raiz latina, no africâner  resultou em apartheid, termo que definiu a concepção e o conjunto das normas que regularam o processo social e econômico separando a população entre brancos, negros e mestiços. Em português, a palavra apartação foi usada no sentido de separar coisas e animais no estábulo; no seu sentido social, de uma sociedade partida, separando as pessoas por classe, como o apartheid separa por raças, ela foi divulgada pela primeira vez em 1992, no livro  O colapso da modernidade brasileira e uma proposta alternativa*, outro livro, O que é apartação - o apartheid social brasileiro**, publicado em 1994, consolidou o termo de modo a substituir a expressão apartheid social, utilizada para indicar o desenvolvimento separado entre incluídos e excluídos, como no caso do Brasil, e não entre brancos e negros, como no caso da África do sul (...).

*O colapso da modernidade brasileira e uma proposta alternativa. São Paulo, Paz e Terra, 1991.
** O que é apartação - o apartheid social brasileiro.São Paulo, Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1994.

LIXO ZERO

O lixo é um dos últimos pontos de contato entre os incluídos e os excluídos, como um elo resistente. Os trabalhos de Marcel Bursztyn, da Universidade de Brasília, mostram que, nos dias de hoje, a coleta de lixo é o principal atrativo para a maior parte dos imigrantes que se dirigem às grandes cidades do Brasil, diferentemente do período que se estendeu até os anos 70, quando os imigrantes chegavam à cidade em busca de emprego. Descontentes com a proximidade desses catadores, em muitas dessas cidades já há restaurantes, casas e lojas que cercam seus lixos para evitar que os catadores tenham acesso a eles. Além disso, a  modernidade criou instrumentos técnicos que eliminam o lixo. São equipamentos que destroem os resíduos, reciclam automaticamente o que tem utilidade, transformam outra parte em energia e dissolvem o que não pode ser reciclado. Com a generalização desse sistema, desaparecerá uma das últimas formas de contato entre os ricos e o pobres.

ADMIRÁVEL MUNDO ATUAL

Publicado em 1932 pelo escritor e crítico inglês Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo se trasnformou em um símbolo do pessimismo social para o século XX. No novo mundo tecnificado, os homens estariam divididos em grupos biológicos - e não apenas em grupos sociais -, produzidos para o desempenho eficiente em tarefas específicas. O livro foi considerado literatura de horror social, sem nexo com a realidade do potencial utópico da civilização. O final do século XX comprova, porém, que o horror social de Huxley se mostrou aquém da realidade que está em marcha com a construção da apartação biológica. O quadro de exclusão socia está gerando um admirável mundo atual ainda mais perverso do que o formulado pela imaginação de Huxley. O que acontece no planeta hoje é um horror diferente, mas não menor do que o descrito por Huxley sete décadas atrás.